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GÉRSON

Gérson de Oliveira Nunes - Armador - Niterói (RJ) - 11.01.1941 

Um dos maiores armadores de jogo que o futebol brasileiro já conheceu. É certamente o melhor lançador da história do Brasil. Tinha uma precisão fora do comum e era capaz de dar passes milimetricamente perfeitos de qualquer distância, seja de bola parada ou em movimento. Podia facilmente colocar a bola no pé de um companheiro a 40 metros de distância. Além do lançamento perfeito, possuía um grande senso tático e estratégico do jogo. 

Era um verdadeiro técnico dentro de campo, orientando seus companheiros e exigindo o máximo empenho de cada um. Chutava bem de fora da área e suas faltas eram sempre um perigo para o goleiro adversário.

Seus gritos e a orientação constante lhe valeram o apelido de "Papagaio", porque não parava de falar. Tinha um grande senso de equilíbrio e quase nunca era derrubado. Costumava usar o calção bem abaixo da linha da cintura para facilitar seus movimentos. Nunca se intimidou em dizer a verdade e criticava os jogadores que estavam atuando mal, sem medir as conseqüências de suas declarações. Era muito calculista e tinha uma incrível capacidade de descobrir o melhor momento para fazer um lançamento e encontrar um companheiro livre. Respeitado por seus amigos, não admitia levar desaforo para casa e não foram raras as vezes em que planejou entrar mais duro em um adversário para descontar alguma jogada anterior.

Não suportava ser derrotado sequer em treinos, razão pela qual sempre se dedicava ao máximo. Líder autêntico, não tinha medo de brigar com Pelé, de criticar os treinadores e de discutir com seus colegas dentro de campo. Tudo para buscar a vitória para seu time. Era corajoso, emotivo, autoritário, sincero, determinado e de moral elevado.

Começou sua carreira no Flamengo ainda como juvenil aos 17 anos. Aos 18, estreou na equipe principal e foi convocado para disputar os jogos Pan-Americanos de 59 em Chicago pela Seleção Brasileira. Marcou seu primeiro gol com a camisa canarinho na partida Brasil 4-0 Cuba, naquele mesmo ano. Em 60, disputou as Olimpíadas de Roma defendendo o Brasil. Aos 21 anos, foi obrigado a fazer sua primeira operação no menisco e por conta disso não pôde participar da Copa de 62. Foi campeão carioca pelo Flamengo em 63 e no mesmo ano foi negociado com o Botafogo, por várias divergências com o técnico Flávio Costa. No Bota, formou um time memorável que tinha Garrincha, Nílton Santos, Didi e Quarentinha. Foi bicampeão carioca em 67 e 68 e do Rio-São Paulo em 66. Formou depois outra grande equipe no alvinegro, desta vez com Jairzinho, Roberto Miranda e Paulo César Caju.

Em 69, foi vendido para o São Paulo. A calvície já começava a aparecer no meia de 29 anos e muitos achavam que já estava muito velho para o futebol. Provou que a idade não pesa para o craque e foi convocado para a Seleção Brasileira que iria à Copa de 70. Jogou quatro partidas na Copa, tendo marcado um gol (justamente na final, contra a Itália) e foi eleito para a Seleção dos melhores jogadores do Mundial de 70. Na Copa, foi um dos líderes da mágica Seleção Brasileira e ganhou o apelido de "Canhotinha de Ouro". Confessava ser um mau marcador, mas sua noção de estrategista fez com que decidisse inverter seu posicionamento com Clodoaldo, na partida contra o Uruguai.

Sentindo que estava bem marcado, trocou de posição com Clodoaldo, passando a jogar de volante e liberando o jogador do Santos para atacar. O resultado foi o gol de Clodoaldo, que empatou a partida, posteriormente vencida pelo Brasil por 3-1. Depois do tricampeonato mundial, voltou ao São Paulo e foi bicampeão paulista em 70 e 71, quebrando um jejum que já durava treze anos no tricolor.

Aos 31 anos, em 72, foi vendido ao Fluminense e atuou dois anos pelo tricolor antes de encerrar a carreira em seu time do coração. Consagrado pela carreira vitoriosa, foi o líder do time que foi campeão estadual em 73, fechando sua passagem no futebol com chave de ouro em 74. O balanço em 15 anos de carreira não poderia ser mais positivo: 4 campeonatos cariocas (1 pelo Fla, 2 pelo Bota e 1 pelo Flu), 1 Copa do Mundo (em 70), 1 Torneio Rio-São Paulo (66, pelo Bota) e 2 campeonatos paulistas (70 e 71). 

Apesar de reconhecer alguns de seus defeitos (não chutar de pé direito, cabecear extremamente mal e marcar pouco), suas virtudes acabaram por superá-los e fazer dele um dos maiores jogadores do futebol brasileiro. A prova disso é a sua inclusão em nada menos do que três Seleções de todos os tempos de alguns dos principais times do nosso país (Botafogo, São Paulo e Fluminense).

Jogou 93 vezes pelo São Paulo e marcou 12 gols. Pelo time do coração, o Flu, foram 55 jogos e 5 gols. Jogando na Seleção Brasileira, foram 23 gols em 83 partidas oficiais. Em jogos não oficiais, foram mais 15 jogos e mais 5 gols. Apesar de não ser um grande goleador, duas partidas ficaram marcadas em sua memória: em 59, o Brasil venceu o México por 6-2 no Pan-Americano e Gérson marcou 3 gols. No ano seguinte, a Seleção enfiou 5-0 em Formosa, com outros 3 gols do Canhotinha.

Ao longo de sua carreira, quebrou a perna de três jogadores. Com Vaguinho, do Corinthians, ele jura que o lance foi acidental. Os outros dois ele admite que fez de propósito. O primeiro foi com o jovem Mauro, em um treino do Flamengo. Mauro ainda era juvenil e havia entrado muito duro em Gérson em um lance anterior. Na primeira oportunidade, o "Papagaio" acertou em cheio o voluntarioso jogador. Com De La Torre, do Peru, a coisa foi mais planejada ainda. Gérson diz que combinou com Pelé que iria quebrar a perna do adversário, que já havia batido em meio time do Brasil e lhe desferido uma cotovelada. Pelé, então, lançou a bola na medida para uma dividida entre os dois e Gérson aproveitou para solar o peruano, quebrando-lhe a perna.

Fumante inveterado, não dispensava um cigarrinho nos intervalos dos jogos. O massagista Nocaute Jack, da Seleção Brasileira, sabia do costume e já deixava o fósforo e o maço de cigarros preparados para o Canhota. Depois de encerrar a carreira, ficou famoso por fazer um comercial de uma marca de cigarro, no qual lia o seguinte texto: "Você também gosta de levar vantagem em tudo, certo?", aproveitando seu famoso bordão. A frase acabou ficando conhecida por "Lei de Gérson" e interpretada em um sentido pejorativo, em que o brasileiro só pensava em passar a perna nos outros. Depois, deixou de fumar e se tornou um dos mais respeitados comentarista esportivos brasileiros, posição em que atua até os dias de hoje.

"Cansei de fazer gols com seus lançamentos."
(Terto, ex-ponta-direita do São Paulo, sobre os grandes lançamentos de Gérson)

"Já não tinha mais a mesma motivação. Para trabalhar, é preciso ânimo."
(Gérson, ex-craque da Seleção Brasileira, explicando porque encerrou a carreira no Flu aos 33 anos)

"Foi uma honra jogar com eles. Era todos craques."
(Gérson, ex-craque da Seleção Brasileira, prestando sua homenagem a Didi, Nílton Santos, Garrincha e outros, com quem atuou no Botafogo)

"Gérson era tão fenomenal que depois de sua saída o Botafogo ficou 21 anos sem ser campeão."
(Jorge Aurélio Domingues, ex-diretor do Botafogo)

"Quando ele parou, sumiram os grandes lançadores do futebol. Foi meu herdeiro."
(Didi, ex-craque do Botafogo e da Seleção Brasileira, sobre Gérson)

"Ele parecia um técnico dentro do gramado."
(João Máximo, jornalista e escritor, sobre Gérson)

"Não entrei no futebol para brincar."
(Gérson, ex-craque da Seleção Brasileira e colecionador de vários títulos)

"Ele era um jogador que queria vencer sempre, não aceitava a derrota assim fácil."
(Orlando Pingo de Ouro, ex-atacante do Fluminense e da Seleção Brasileira, sobre Gérson)

"Ele era excepcional para descobrir um companheiro livre onde estivesse."
(Nelsinho Rosa, técnico de futebol, sobre a capacidade de lançar de Gérson)

"Percebo que acertei ao me dedicar à bola tanto tempo. Acho que fiz o suficiente para ser colocado entre os melhores."
(Gérson, ex-craque da Seleção Brasileira, sobre sua carreira)

"O vampiro de Dusseldorf, que era especialista em sangue, se provasse o sangue de Gérson, havia de piscar o olho: - 'Sangue do puro, do legítimo, do escocês'."
(Nélson Rodrigues, escritor, jornalista e dramaturgo, rebatendo as críticas de que Gérson não tinha "sangue e coragem")

"Muita gente critica o jeito que eu uso o calção, bem caído. Concordo que não é muito estético, mas posso garantir que me facilita os movimentos."
(Gérson, ex-craque da Seleção Brasileira)

"Ser líder é não querer perder nunca, dentro ou fora de campo e tratar a todos - cozinheiro ou dirigente - com a mesma dignidade. Então, sou líder aqui, em casa e na rua."
(Gérson, ex-craque da Seleção Brasileira)