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Autoridade Máxima

Pela primeira vez na história, aqueles dois times rivais se defrontariam pela decisăo do campeonato regional.  As vizinhas cidades pararam e năo se falava em outra coisa pelos bares e esquinas. Se em qualquer partida, mesmo que amistosa, o jogo já era uma guerra, imagine agora, que valia o título.

E a rivalidade tinha lá os seus motivos. Os “coronéis”, presidentes de cada time, eram arquiinimigos e caciques políticos da regiăo, conhecidos pelos métodos nada esportivos com que resolviam as situaçőes, nas quais muitas vezes a bala substituía o diálogo para resolver as mais simples pendengas.

Faltando uma semana para o jogo, os organizadores estavam com um grande problema: todos os juizes da liga, pressionados e acuados pelas ameaças vindas dos dois lados, se negavam a apitar a partida.

Após muita discussăo surge uma soluçăo de consenso: a partida deveria ser apitada pelo delegado Durăo, a autoridade máxima do lugar. Conhecido como “Kid Durăo”, era o único terrestre capaz de se fazer respeitar pelos coronéis manda-chuvas.

Só que havia um “pequeno” problema: o “Xerifăo” năo entendia nada de futebol, sendo capaz de achar diferença entre um córner e um escanteio.

Diante do impasse, alguém sugere que, caso o delegado aceitasse a missăo, algum árbitro da liga poderia ministrar um curso relâmpago de arbitragem para ele, tornando-o, assim, apto a mediar o confronto.

“Kid Durăo”, que năo era de fugir de desafios, topou a parada e se dedicou a aprender em uma semana as 17 regras do futebol.  E até que foi bem. Ao final do curso, inclusive, respondeu sem dificuldades todo o questionário que abordava várias situaçőes de um jogo.

No dia do confronto, apesar da desconfiança geral, assim que a bola rola, o “juiz delegado”, embora com uma saliente barriga, surpreendentemente, vai levando o jogo com desenvoltura e autoridade, se bem que, para fazer valer esta autoridade, trazia seu 38 na cintura. O jogo estava quase no fim e ele năo se equivocara em nenhum lance, desde um tiro indireto até a reversăo de um lateral.

O time da casa, que precisava do empate para ser campeăo, segurava o 0 x 0.  Os visitantes pressionavam em busca do gol salvador.

No último minuto, entretanto, aconteceria o lance inusitado: o atacante do time visitante é derrubado em cima da linha e o “juiz”, em correta interpretaçăo da regra, năo titubeia e marca o pęnalti.

Furibundo, o coronel, mega cartola do time local, ameaça invadir a cancha e melar o jogo, mas recua, ao lembrar que poderia ser preso.

Depois de muita confusăo, o avante se prepara para bater a penalidade. A torcida local se desespera.  “Sua senhoria”, pela primeira vez, se mostra tenso e indeciso, ao ver o atacante frente a frente com o goleiro.  E recorre ao bloco de anotaçőes que levava no bolso.

O atacante chuta e marca o gol...

Mas “Kid Durăo” apita impedimento.

Logo depois o jogo termina. E o time da casa se torna campeăo.

Os visitantes se revoltam, embora ninguém se atrevesse a desautorizá-lo, como medo de passar a noite atrás das grades.

Na verdade, quem acabou dormindo no xilindró e acordou vendo o sol nascer quadrado, foi o juiz da liga que deu o curso.  Preso pelo delegado, assim que este foi esclarecido do inacreditável erro.

Seu crime: nas aulas ministradas durante a semana, esquecera de ensinar ao aspirante a juiz um único detalhe: na regra 11, que trata do impedimento, a situaçăo em que săo necessários pelo menos dois jogadores entre quem está com a bola e a linha de fundo, năo se aplicava ao pęnalti.

Pagou caro por isso.

Victor Kingma

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